RESENHA: O TÚMULO DOS VAGALUMES (1988)

Quando a Netflix anunciou no começo do ano passado que adicionaria os filmes do Studio Ghibli ao seu catálogo, eu logo me animei. Cresci assistindo aos animes fantasiosos como Meu Amigo Totoro e Ponyo. Mas para a minha surpresa, um dos animes que eu mais esperava para assistir, pois não encontrava em lugar nenhum, não seria adicionado ao catálogo.

Muitas vezes tinha ouvido falar sobre O Túmulo dos Vagalumes, sabia que deveria me preparar já que a história seria triste, bem triste; mesmo assim vasculhei por todo canto até conseguir encontrar ao filme. Como eu já havia assistido a outros animes, também do Studio Ghibli, que conseguiram me emocionar, não esperava que fosse derramar tantas lágrimas com esse título, mas desde o início essa história gerava impacto.

Diferente dos mundos fantásticos apresentados por Miyazaki, o anime dirigido por Isao Takahata aborda temas reais e sensíveis: o Japão durante a Segunda Guerra Mundial. O filme baseado no conto de Akiyuki Nosaka traz a história de dois irmãos que se tornaram órfãos em meio ao caos da guerra, Seita e Setsuko. Já de início notamos o destino dos protagonistas: um corpo jogado ao chão, imóvel e praticamente sem vida, tratado como indigente e esquecido pela sociedade. Apesar da cena forte, logo em seguida vemos o reencontro agridoce de Seita e Setsuko e começamos a entrar na jornada que os levou àquele destino.

O Túmulo dos Vagalumes – Studio Ghibli

Toda a construção da obra nos prepara para o final que esperávamos, mas que não queríamos ver. Assim como o ambiente ao redor se degrada, a humanidade e os sentimentos maís mesquinhos e egoístas.

A luta para sobreviver coloca de lado toda a empatia e o senso de cominidade entre aqueles que viram, pouco a pouco, o lugar em que vivem ser destruído por aquele mostro que atacava do alto sem aviso prévio.

As perdas sofridas pelos irmãos nos afetam gradualmente durante a narrativa. Setsuko, por ser ainda muito nova não percebe exatamente o que está acontecendo, mas sente a perda dos pais e o descaso da tia que não oferece o apoio que os dois precisavam naquele momento. Sendo assim, Setsuko só tem a Seita e Seita só tem a Setsuko. Exatamente por enxergar que não era bem-vindo ali, Seita decide se virar sozinho para cuidar da irmã, mas, com a pouca idade que tinha, o menino não compreendia que a falta de estrutura e o caos ao seu redor só tornariam a sua realidade ainda mais dura. A partir daí o que vemos é a construção da relação entre os irmãos e a luta deles para sobreviver sozinhos. Lhes falta comida, lhes falta a família e uma casa, mas não lhes faltava o amor e cuidado um para o outro e a força de vontade para sobreviver.

Tudo acontece para trazer à tona a discussão sobre os males da guerra; as reações daqueles que ainda encontram uma forma de viver, mas se recusam a ajudar e daqueles que se vêem sem saída e acabam por morrer, não pelas armas e pelas bombas, mas pela situação em que a guerra os coloca.

A construção da obra como um todo – sua trilha sonora, ambientação, narrativa – não só emociona como faz refletir. Enquanto muitos filmes norte-americanos nos trouxeram a prespectiva da glória trazida pela guerra, muitas vezes nos esquecemos que na verdade nada de bom resultou dali. Vidas foram perdidas, cidades foram destruídas e a dignidade de muitas nações foram manchadas para que outros fossem tidos como heróis. A verdade é que não existe herói ali e para muitos nada daquilo valeu a pena.

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