Arte de Vanni (@bunnyllaw)

A alegoria trans de Jax em O Maravilhoso Circo Digital

Antes de irmos ao texto, informo que aqui é a Luana, uma das criadoras desse blog, mas que o texto a seguir foi escrito por meu melhor amigo, Vanni, um escritor, desenhistaatendente em um maid cafépadeiro, enfim, um pouco de tudo, e mais importante um nerdola assíduo que sempre me ajuda com recomendações para o blog. E a arte na capa desse post é arte do Vanni, sim, além de tudo, ele é o melhor desenhista digital que existe. Sigam ele nas redes sociais e sem mais delongas, fiquem com o texto.

Atenção! O texto contém spoilers da série e do filme!

The Amazing Digital Circus é um projeto de animação independente do estúdio GLITCH que foi iniciado no Youtube e se expandiu para a plataforma da Netflix, e atualmente tem seu episódio final sendo exibido nos cinemas.

Com o final da série, muitas opiniões mistas surgiram, principalmente sobre Jax.

Jax foi apresentada durante a grande maior parte da série com pronomes masculinos, mas dizer que a transexualidade da personagem foi inserida fora de tela ou apenas no último episódio é de imensa falta de interpretação. 

Durante toda a trama, a problemática entre Jax e Gangle sempre foi demonstrar superioridade através de abuso, como tentativa de não demonstrar fraqueza e até mesmo censurar sua sensibilidade. Com Zooble, a zombaria com a questão de gênero era carregada pela tentativa de apagar as próprias disforias.

Visto que uma grande quantidade de pessoas (em maioria cis) acredita não ter visto nada sobre o assunto na série, eu separei alguns momentos que desenvolveram isso dentro dos episódios anteriores e também no final.

Logo no quinto episódio vemos um diálogo onde Jax reforça sua masculinidade com a frase “…minha aparência é o auge do desempenho masculino. Fala sério, as minhas orelhas e cauda são o ápice da masculinidade.”

Logo em sequência no mesmo episódio, Jax surta quando escolhem por votação que ela vista um uniforme de empregada. A sua “contraparte do mal” além de ser fraco e assustado, comenta que “gostou do visual”. 

Durante o episódio sete, todos os personagens aparecem usando roupas de banho, menos Jax.

No oitavo episódio o quarto dela é todo rosa e decorado, parecendo um quarto estereotipado e infantil de menina. 

O episódio final junta as peças anteriores e percebesse que esses comportamentos eram reflexo do medo que Jax desenvolveu por conta dos abusos vindos de sua mãe, onde ela oscilava entre reclamar de sua fraqueza quando demonstrava feminilidade, mas desprezava sua masculinidade agressiva comparando ela com seu pai.

Também vemos 4 versões de Jax e uma porta muito bem trancada, ao qual 3 deles mandam calar a boca quando ouvem um mínimo som vindo da sala. Como se a negação fosse tão grande que apesar de saber, prefere ignorar o tema. 

Muitas pessoas confundem essa sala trancada com a outra sala também cheia de correntes, que estava no corredor. A primeira representa como seria o luto se Pomni abstrai-se, mas a sala com o qual as versões de Jax gritam fica dentro de outra sala. O que estava ali era provavelmente uma versão de Jax que a mesma se recusava a olhar. 

Apenas uma das personalidades de Jax não parece agressiva, mas está acorrentada ao piano, como se sua única parte disposta a abrir aquela porta sentisse que não pode fazer isso. 

Jax teve diversas falas e atitudes agressivas, misóginas e homofóbicas de alguém que ainda está no armário, e isso esteve presente durante quase todos os episódios. 

O motivo de a Gooseworx vir a público confirmar informações sobre a Jax, não se deve á falta de informação dentro da série e sim a ela ter notado a falta de interpretação do público. 

Além de, mesmo após essa confirmação, ainda existe a discussão se a Jax é ou não trans, e também surgiu a problemática de ela não ser uma boa representação.

Representatividade de pessoas LGBT não precisa ser resumida a personagens genéricos, tristes e sofridos que tem final feliz. 

Jax é uma personagem complexa, a representação de não só do que acontece com uma pessoa que sofreu abuso e não tratou seu psicológico tornando-se abusadora como mecanismo de defesa, como também é a representatividade da parte da comunidade trans que as pessoas se esquecem que existe: as pessoas que ainda não estão seguras de transicionar, que estão em negação ou que a transição está em processo.

Existe uma visão distorcida de pessoas trans só existirem “após a transição”, mas o que é ser trans afinal? O que é transição? 

Isso vai além de sentir ou não disforias, de mudar ou não o nome, de se assumir publicamente, ou de fazer o não uso de hormônios. A transexualidade é diferente para cada indivíduo trans, e as vivências são diferentes baseado em estruturas familiar, condições financeiras e até mesmo no psicológico de cada um. 

Pessoas trans são trans a partir do momento em que elas se entendem trans.

Eu, enquanto pessoa trans, achei a representatividade da Jax incrível, e eu entendi todas as coisas que Gooseworx quis passar sem precisar de subtextos ou explicações no BlueSky.

Acredito em dois pontos: que a obra alcançou um público muito jovem e que talvez nem todos tenham o senso crítico necessário para processar certos assuntos, mas também que nem tudo é tão profundo e que é uma animação despretensiosa onde colocaram expectativa de ser revolucionário demais. 

Dito isso, fico feliz de saber que no final a “Jax verdadeira” ainda está tendo sua chance aqui no mundo real. Jax foi sim uma personagem problemática e cometeu muitos erros, e sua história não justifica suas atitudes. Mas isso não tira o mérito de como isso afeta no desenvolvimento da personagem na trama, de como isso se encaixa perfeitamente com a sua representatividade.

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