CAPITÃES DE AREIA

O Brasil tem em sua história algo enraizado que impede que as diferenças sociais diminuam. Não é algo que poderia mudar em 20 anos de governos de esquerda, tampouco algo que foi construído nos últimos anos. Nossa país nasceu da exploração e, com ela, a escravidão. Dentre todos os países que permitiram a escravidão, o Brasil foi o último a proibi-la, mas ela nunca deixou de existir por aqui, tampouco deixou de ser desejada pela elite. Ano após ano vemos as consequências de uma abolição tardia e de uma segregação social que apenas serve para manter a elite cada vez mais distante de outras classes. Foram campos de concentração para evitar que o sertanejo se aproximasse da capital, foram favelas crescendo por falta de acolhimento e investimento, foram anos de crianças morrendo de fome enquanto o país só investia e auxiliava o povo que vivia em locais privilegiados pela natureza com abundância de recursos naturais suficientes para sustentar todo o agronegócio, enquanto os povos de regiões mais áridas eram esquecidos e maltratados.

A fome no nordeste não é pauta do Século XXI, ela existe há muito tempo e só passou a ser tratada como prioridade há poucos anos. Se voltarmos décadas atrás, mesmo na literatura, encontramos exemplos do que este esquecimento causou em gerações e gerações de nordestinos e do porquê existia uma migração tão volumosa ao sul do país.

Capitães de Areia, livro de Jorge Amado foi publicado em 1937, período em que Getúlio Vargas ascendia ao poder e uma discussão sobre a luta de classes começava a florescer pelo Brasil. O assunto passou a refletir na arte, especialmente na literatura que, com o movimento modernista,, buscava expor os problemas sociais enfrentados pelo país, mostrando certo desencanto com a realidade e trazendo um pessimismo que não era explorado em movimentos anteriores.

O livro trata a vida nas ruas de Salvador, em um contexto em que enfrentávamos uma epidemia de varíola e a violência policial contra menores infratores era crescente. Não só a capital baiana vivia este ambiente hostil. Grupos de crianças, abandonadas a própria sorte, sem família, sem perspectiva de vida, existiam aos montes, mas aqui é dos Capitães de Areia que vamos falar.

Meninos órfãos, abandonados, sozinhos. Eram apenas crianças que viviam entre a tortura e a violência policial, a fome e uma sociedade que preferia punir do que acolher. Juntos eles encontraram abrigo em um antigo armazém e o transformaram em seu lar. Eles crescem atrevidos, malandros e agressivos, usando de força física, violência e sua esperteza para sobreviver à hostilidade do local. Se envolvem em pequenos ou grandes furtos, liderados por Pedro Bala, um jovem de quinze anos, sagaz e conhecedor de todos os cantos de Salvador. Entre se escorarem no crime e buscarem ter liberdade, os meninos acabam indo ao reformatório e ao orfanato, mas nunca são realmente acolhidos, sofrendo punições severas e se acostumando com uma realidade violenta e cruel, que também os torna um perigo para sociedade em vários aspectos, já que além de usar a violência para roubar, eles passam a abusar sexualmente de mulheres e crianças.

É claro que a alta sociedade os enxerga como pestes, escória. Temem que a cidade que tanto “zelam” se torne inabitável por conta de moleques incontroláveis que só sabem provocar o caos e sujar as ruas de Salvador. Mas então fica a dúvida, se estes meninos não tivessem sido largados à própria sorte, seriam eles obrigados a escolher o pior dos caminhos para sobreviver? Com políticas públicas que acolhem, educam, alimentam e trazem oportunidades para que os jovens possam se desenvolver e viver com dignidade, a criminalidade não começa a cair? Até que ponto devemos virar as costas à pobreza extrema e abandonar o nosso próprio povo por um projeto de enriquecimento próprio que nunca virá? Esquecemos que temos um contrato social em que devemos prezar pelo bem social enquanto tentamos melhorar o nosso bem pessoal. Pagamos impostos para que nosso povo viva com dignidade, mas isso irrita muita gente, muito mais do que políticos com salários astronômicos e mil benefícios, muito mais do que os grandes ricos não pagando mais impostos do que os pobres, muito mais do que milhões de reais sendo despejados à filhas de militares que mentem sobre seu estado civil para continuar recebendo uma pensão que nunca deveria ser paga a elas.

E assim que nossa sociedade se corrompe e adoece de dentro para fora, permitindo que o fascismo cresça e mate nossa democracia, enquanto assistimos nosso povo morrer de fome, já que para muitos vale mais ver os outros sofrendo do que oferecer oportunidades para que todos possam evoluir.

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