Dentre tantas discussões acaloradas nesses últimos dias, ideias totalitárias e extremistas foram expostas de um dos lados – ideias estas que ameaçam a liberdade individual e de expressão, colocando em risco a nossa democracia. Entretanto, nomear tais comportamentos é algo muito ariscado, podendo gerar desconforto e desentendimento, por isso é importante buscar informações concretas e confiáveis antes de apontar o dedo e criar um ambiente mais hostil. Existem diversos estudiosos e escritores que são conhecidos por explorar e pesquisar sobre extremismos, mas um dos mais famosos é George Orwell.
Considerado um dos maiores escritores da era contemporânea, Orwell teve vivência direta entre conflitos armados ao servir na Polícia Imperial Britânica da Índia. Essa experiência serviu como pano de fundo para a formação de uma visão única em relação a esta instituição, assim como do momento político que o mundo enfrentava na época. Suas obras mais famosas, 1984 e A Revolução dos Bichos exploram cenários sombrios, onde regimes totalitários causam guerras, controle da população e supressão dos direitos individuais, criando um cenário de caos e medo. O legado do escritor, continua influenciando muitos escritores ainda nos dias de hoje e suas obras são referências na discussão sobre como crises econômicas que quase rompem com o capitalismo acabam fazendo com que o fascismo se reascenda.
Na obra Ensaios, algumas reflexões do escritor são expostas, entre elas textos marcados de críticas sobre política e desigualdade social. O autor é crítico ferrenho a regimes autoritários, o que fica claro ao ler qualquer uma de suas resenhas, ensaios, colunas ou reportagens. Orwell gostava de questionar o status quo, apesar de ter tendências conservadoras, o que poderia ser contraditório, pois o mesmo se via como anarquista e socialista.
Um dos textos que mais chama atenção nessa obra é “O Que é o Fascismo?”, ele abre a discussão apresentando uma pesquisa feita por instituto estadunidense, que ouviu a opinião das mais diversas pessoas. O tópico, complexo, não pode ser apenas explicado com base em opiniões – dependendo de onde e quando se surge tendências fascistas, elas podem se manifestar de maneiras distintas. O autor tem o cuidado de não amenizar o assunto, ao mesmo tempo que tenta não generalizá-lo, nos fazendo questionar o porquê da palavra estar sendo utilizada de maneira equivocada e perdendo seu significado.
A reflexão sobre o assunto não poderia ser mais atual. Com governos cada vez mais conservadores e extremistas, a palavra fascismo tem ganhado muita força nas mais variadas discussões. Assim como o termo comunista, ela passou a ser usada para descrever qualquer pessoa que esteja do outro lado. Afinal, querer justiça social e que todos vivam bem significa ser comunista? Ou, pensar de um governo menos estadista e com mais liberdade de mercado é tão extremista assim?
Além do texto sobre o fascismo, Orwell divaga sobre a pobreza, sobre a guerra e sobre figuras políticas envolvidas nos conflitos do início do século XX. Ensaios é uma leitura rápida e que desenvolve o pensamento crítico sobre assuntos cotidianos que ainda parecem tabu para muita gente.
Na edição publicada pela Editora Pé de Letra em 2020, os textos são divididos entre 116 páginas, fazendo desta uma leitura rápida e intuitiva. Apesar dos textos nem sempre terem ligação um com o outro, eles nos ajudam a refletir também sobre o momento político e social que enfrentamos globalmente em 2026. São pensamentos baseados em acontecimentos do século passado, mas que continuam atuais e parecem voltar de tempos em tempos, quando a ruptura com a ordem mundial atual parece eclodir.

